Travessia número zero
Mais um dos desdobramentos do Caminho do Sertão
Era fim de tarde quando um senhorzinho, por volta dos 80 anos, se encontrou comigo e com os outros caminhantes ao longo da travessia. Nessa região não havia internet na estrada e, por isso, ficávamos dias e dias sem sinal. Naquela altura, já caminhávamos há quatro dias, e aquele caminho que fazíamos era o caminho do forró do Seu Antônio. Não sei o que passou na cabeça dele quando esbarrou com esse grande grupo que vestia roupas de academia e segurava na mão cada um o seu cajado, mas sei, que ele escolheu seguir seu caminho com a gente. Os cabelos branquinhos e o sotaque digno de quem viveu toda a vida no interior de Minas Gerais fizeram uma das caminhantes lembrar do seu pai. Fizemos uma das paradas numa grande árvore onde o sol do entardecer batia entre os galhos. Havia um vigor dentro de mim, apesar do cansaço. A vida valia muito do lado daquele homem, do lado da história que aquele homem contava pra mim, da sensação de ser a escolhida pra caminhar lado a lado — mesmo que o grupo tivesse um pouco mais de 15 pessoas reunidas.
Hoje, depois de pouco mais de sete meses, acordo com tantas notícias em torno da mediocridade humana. Os miseráveis esgarçando a esperança. E lembro de dias como esse: a postura firme enquanto andávamos para que a noite terminasse no agarradinho do forró, que sei que Seu Antônio viveu muito bem. A cada despertar, penso nele e se, ao menos, sente também o mundo inflamando a cada dia. Será que sabe que, em outro continente, países empilham mortos? Aliás, ali na região em que morava, não tínhamos sinal de internet e desconfio de que isso possa ser uma bênção. Me agarro à árvore, à sua casa, à areia da estrada e aos seus cabelos branquíssimos.
Desde novembro de 2025, venho escrevendo alguns poemas do meu novo livro — um livro sobre ressentimentos, mágoas, ciúmes, vaidade e inveja. Sentir tudo isso e escrever é como colocar a fúria que sinto pela forma como me tratam, sendo mulher, negra e suburbana, dentro da intelectualidade pela qual preciso transitar. Ainda carrego pequenos gestos de vingança, como estalinhos que jogo vez ou outra para provocar um susto. Entretanto, minha vingança não é contra o outro; sinto que ela se realiza sendo, de alguma forma, aquilo que esse sujeito não quer que eu seja. É uma rebeldia diante do que esperam de mim, quase como o desejo de que quero mesmo que certas pessoas não me olhem na cara. Isso veio à tona no meu corpo. Tenho 30 anos, e o médico me disse que sou muito jovem para ter duas pedras tão grandes na vesícula. Fui pesquisar sobre a possível leitura psicossomática dessa doença e encontrei: sentimento de injustiça, fúria, ira.
Como canalizar tanta energia para lugares onde eu possa materializar ainda melhor meus pensamentos e, ao menos, fazer algo que se torne de fato palpável? As oficinas são um caminho bonito, mas ainda sinto que há energia para outras frentes. Nesse sentido, realizei a “Travessia número zero”. Foi o ponto de maturação mais bonito de um trabalho que já fiz na vida. Após dois anos falando o livro “Navalhar o chão com dentadas” em espaços fechados, pude, enfim, levá-lo pelas ruas de Curitiba, com um grupo de oito pessoas. Andamos da Livraria Telaranha até a Casa Réstia — cerca de 40 minutos de travessia. Algo de diferente aconteceu. Ninguém pegou o celular para registrar; foi preciso estar muito atento à rua e à minha voz. Também foi curioso perceber a forma como cada um lidou com as próprias distrações. Precisei fazer um esforço maior para lidar com a lembrança e o esquecimento. Outra questão foi como me posicionar enquanto caminhava, para que as pessoas pudessem ouvir minha voz. É como um carretel: quanto mais desenrolo, mais encontro algo que me faz querer sentir novamente esse impulso contrário. O que busco é o oposto do que o mundo tem me dado, menos tempo de tela, mais encontros, mais possibilidade de ir ao fundo do livro, ao fundo do pensamento sobre o que é o livro, sobre o que é a palavra. Coragem. O que busco é coragem para viver com dignidade nesta vida.
Enquanto não acontece as próximas travessias, faço um convite para o clube do livro que vou conduzir no Sesc Duque de Caxias (sábado, dia 14/3), e também a oficina de escrita no Sesc Ramos (a partir de domingo, 15/3). Além disso, tenho um encontro marcado no Colégio Pedro II de São Cristóvão, no dia 9/3, às 14h com a Heleine Fernandes. E por último, as inscrições do Caminho do Sertão abriram nesta terça-feira, e acredito muito que você deva se inscrever.

